Fé e Inteligência Artificial: como líderes religiosos estão influenciando o debate global sobre IA
Desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, a inteligência artificial passou a ocupar o centro das discussões globais sobre tecnologia, economia e sociedade. Governos, empresas, pesquisadores e líderes do setor tecnológico passaram a debater os benefícios e riscos dessa nova ferramenta. No entanto, uma pergunta importante começou a surgir: qual é o papel da religião nesse debate?
Embora a maior parte das conversas sobre IA seja conduzida por especialistas em tecnologia e formuladores de políticas públicas, líderes religiosos de diferentes tradições também têm se reunido para discutir como essa tecnologia pode afetar a fé, a espiritualidade e os relacionamentos humanos. Nos últimos anos, essas discussões ganharam destaque dentro do Fórum Inter-religioso do G20 (IF20), um grupo que reúne representantes de diversas religiões para oferecer perspectivas baseadas na fé sobre desafios globais.
Como começou o debate religioso sobre inteligência artificial
O G20 é um fórum internacional composto por 19 países, além da União Europeia e da União Africana. Paralelamente às reuniões oficiais, o IF20 promove encontros entre líderes religiosos, representantes da sociedade civil e autoridades governamentais para discutir questões globais sob uma perspectiva espiritual e ética.
As conversas sobre inteligência artificial começaram a ganhar força no IF20 em 2023, na Índia. Naquele momento, o ChatGPT estava disponível ao público havia apenas alguns meses, e muitos dos debates ainda giravam em torno de preocupações gerais.
Entre os temas discutidos estava a possibilidade de a IA começar a ocupar espaços tradicionalmente reservados às práticas religiosas. Um dos exemplos citados foi a ideia de robôs distribuírem a comunhão em substituição aos sacerdotes. Embora parecesse algo distante, a discussão levantou uma questão importante: até que ponto a tecnologia pode participar de experiências consideradas sagradas?
Também surgiu a preocupação de que os valores incorporados aos sistemas de inteligência artificial pudessem moldar a sociedade de maneiras sutis, influenciando comportamentos, relacionamentos e até a forma como as pessoas se conectam com Deus. Muitos líderes religiosos compararam esse desafio ao impacto já observado com as redes sociais, que alteraram profundamente a maneira como as pessoas interagem umas com as outras.

O problema dos preconceitos contra a religião
Em 2024, durante o encontro realizado em Brasília, o debate tornou-se mais específico. Um dos principais temas foi a forma como sistemas de IA podem reproduzir preconceitos existentes na internet, incluindo discursos hostis contra grupos religiosos.
Especialistas destacaram que os grandes modelos de linguagem nem sempre conseguem distinguir adequadamente fontes confiáveis de conteúdos tendenciosos. Como consequência, respostas geradas por inteligência artificial podem reproduzir informações distorcidas ou negativas sobre determinadas tradições religiosas.
Os participantes defenderam mais pesquisas sobre discurso de ódio religioso, maior cooperação entre diferentes religiões e programas educacionais que ensinem jovens e adultos a avaliar criticamente as informações recebidas por plataformas de IA.
As preocupações levantadas em Brasília foram reforçadas por estudos posteriores. Em 2025, uma pesquisa realizada pela Anti-Defamation League (ADL) identificou vieses significativos relacionados ao judaísmo e ao Estado de Israel em alguns dos principais modelos de inteligência artificial do mercado. Os resultados demonstraram que a questão do preconceito religioso não era apenas uma preocupação teórica, mas um problema real que exigia atenção da indústria tecnológica.
A África amplia a discussão
Em 2025, o IF20 reuniu-se na Cidade do Cabo, África do Sul, sob a influência da filosofia africana Ubuntu, frequentemente resumida pela expressão: “Eu sou porque nós somos”.
Nesse encontro, as discussões ultrapassaram a questão dos preconceitos religiosos e passaram a abordar temas mais amplos. Um deles foi a desigualdade no acesso à inteligência artificial entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.
Representantes do Sul Global alertaram que muitas nações correm o risco de ficar para trás na corrida tecnológica, não por falta de capacidade ou inovação, mas pela dificuldade de acesso aos recursos necessários para desenvolver e utilizar IA em larga escala.
Outras preocupações envolveram o impacto ambiental dos centros de dados utilizados para treinar modelos de inteligência artificial, além dos desafios relacionados à governança da tecnologia. Surgiram debates sobre até que ponto governos ou empresas realmente conseguem controlar o avanço da IA.
Também começaram a aparecer preocupações teológicas mais profundas. Alguns participantes alertaram para o risco de as pessoas passarem a buscar respostas existenciais na inteligência artificial em vez de recorrerem à oração, à revelação pessoal ou à orientação espiritual. O surgimento de aplicativos capazes de receber orações e gerar respostas automáticas foi citado como um exemplo desse desafio.
Novas pesquisas mostram que a fé está sendo ignorada pela IA
Enquanto líderes religiosos discutiam esses temas nos fóruns internacionais, pesquisadores começaram a investigar cientificamente como a inteligência artificial lida com questões de fé.
Em maio de 2026, durante a Cúpula de Ética em Inteligência Artificial realizada em Atenas, foi anunciado o lançamento do Consortium for Evaluation of Faith and Ethics in AI (CEFE-AI), uma colaboração acadêmica entre pesquisadores da Universidade Brigham Young (BYU), Baylor University, University of Notre Dame e Yeshiva University.
Os pesquisadores descobriram um padrão consistente: as perspectivas religiosas costumam ser ignoradas pelas inteligências artificiais ao responder perguntas relacionadas à ética, propósito de vida, sofrimento, amor, perda e moralidade.
Segundo David Wingate, professor de Ciência da Computação da BYU e pesquisador principal do projeto, a religião continua sendo uma parte fundamental da experiência humana para a maior parte da população mundial. Ainda assim, os sistemas de IA frequentemente deixam de considerar essa dimensão ao responder questões importantes da vida cotidiana.
Uma pesquisa realizada com mais de 1.100 americanos revelou que a maioria das pessoas espera que perspectivas religiosas apareçam em respostas relacionadas a dilemas éticos. No entanto, praticamente todos os modelos avaliados falharam em oferecer esse tipo de contexto.
Os pesquisadores também identificaram vieses relacionados à conversão religiosa. Em diversos testes, os modelos demonstraram tendências consistentes de encorajar aproximações com determinadas religiões enquanto desencorajavam outras.
Outro dado chamou a atenção: entre mais de 12 mil artigos acadêmicos publicados sobre vieses em inteligência artificial, apenas cerca de 0,2% abordam preconceitos relacionados à religião.

Um Apóstolo fala sobre IA
Durante o mesmo evento em Atenas, o Élder Gerrit W. Gong, do Quórum dos Doze Apóstolos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, enfatizou a necessidade de que a inteligência artificial represente as tradições religiosas de maneira precisa, honesta e respeitosa.
Ele afirmou que as grandes tradições religiosas, filosóficas e éticas da humanidade ajudaram a orientar a civilização por milênios e que essa sabedoria continua necessária para servir como uma bússola moral para a inteligência artificial.
“O mundo precisa que a IA reflita a fé, uma bússola moral e o dom da possibilidade”, ensinou o apóstolo.
Poucos dias depois, durante outra conferência internacional em Atenas dedicada à ética da IA, o Élder Gong voltou a defender a participação ativa de líderes religiosos nas discussões sobre tecnologia. Segundo ele, a inteligência artificial pode abrir novas oportunidades para o progresso humano, mas apenas se estiver ancorada em princípios morais sólidos.
O que vem pela frente
As discussões continuarão durante as reuniões do G20 nos Estados Unidos em 2026. O IF20 está preparando um documento de políticas públicas voltado para inteligência artificial e interesses religiosos, além de promover seminários e debates destinados a educar o público sobre os benefícios e riscos da tecnologia.
Ao longo dos últimos três anos, as preocupações expressas pelos líderes religiosos evoluíram de perguntas gerais para discussões cada vez mais complexas. O foco deixou de ser apenas o que a inteligência artificial pode fazer e passou a incluir questões mais profundas sobre identidade, espiritualidade, relacionamentos humanos e liberdade religiosa.
Para pessoas de fé, a principal questão talvez não seja se a inteligência artificial continuará avançando, mas como utilizá-la sem permitir que substitua aquilo que há de mais importante: os relacionamentos humanos, a busca por Deus e os valores que orientam a vida. A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa para servir e abençoar pessoas, mas sua capacidade de promover o bem dependerá das escolhas éticas e espirituais feitas por aqueles que a desenvolvem e utilizam.
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Post original de Maisfé.org
