Jejuai por mim: o que Ester nos ensina sobre o poder do jejum em união
Susã, capital do Império Persa, século V a.C. Uma rainha judia recebe, através de seu primo Mardoqueu, a notícia mais terrível que poderia imaginar: um decreto real, selado com o anel do próprio rei Assuero, sentenciava à morte todo o povo judeu no império — homens, mulheres e crianças, num único dia (Ester 3:13). O responsável era Hamã, primeiro-ministro do rei, ferido em seu orgulho porque Mardoqueu se recusara a se curvar diante dele.
Ester estava numa posição única e perigosa. Era rainha, mas escondia sua origem judaica. Poderia intervir junto ao rei, mas aproximar-se dele sem ser chamada era crime capital, “uma só lei” que valia até para ela, “salvo aquele a quem o rei estender o cetro de ouro, para que viva” (Ester 4:11). Havia trinta dias que não era chamada à presença de Assuero. O silêncio podia significar que já não desfrutava do favor real.
É nesse instante, entre o medo de morrer e o dever de agir, que Mardoqueu lhe envia a seguinte mensagem: “E quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Ester 4:14).
A resposta de Ester não foi um plano político nem uma estratégia de persuasão. Foi um chamado ao jejum. Ela ordenou:
“Vai, ajunta todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de dia nem de noite; eu e as minhas moças também assim jejuaremos; e assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e, se perecer, pereci.” — Ester 4:16
E o versículo seguinte relata a resposta do povo: “Então, Mardoqueu se foi e fez conforme tudo quanto Ester lhe ordenara” (Ester 4:17).
Por que Ester, num dos momentos mais decisivos e pessoais de sua vida, escolheu não jejuar sozinha? E o que isso revela sobre a diferença espiritual entre o jejum feito individualmente e o jejum realizado por uma família, uma congregação ou um grupo de pessoas com um mesmo propósito?

Por que Ester convocou o jejum de todo o povo
Ester tinha motivos concretos para pedir um jejum coletivo, e as escrituras e os ensinamentos dos profetas modernos ajudam a compreendê-los.
Primeiro, a ameaça de extermínio pairava sobre cada família judaica em Susã. Um problema comunitário exigia uma resposta comunitária diante de Deus. Ester poderia ter jejuado sozinha em seus aposentos reais; em vez disso, escolheu unir seu jejum ao de “todos os judeus que se acharem em Susã” (Ester 4:16), fazendo do momento uma súplica coletiva, e não apenas pessoal.
Segundo, havia um propósito específico e compartilhado: obter a intervenção divina para que o rei estendesse o cetro e poupasse o povo. Não era um jejum que agraciaria apenas ela, era um jejum com um alvo claro, unindo a fé de centenas de pessoas em torno de um único pedido.
Terceiro, Ester precisava de coragem sobrenatural para fazer algo que, por lei, poderia custar-lhe a vida. Ao reunir o povo em jejum, ela não estava apenas buscando um milagre para o povo; estava buscando força para si mesma através da fé coletiva de todos os que jejuavam junto com ela. Há algo profundamente humano nisso: mesmo uma rainha, investida de autoridade, reconheceu que precisava da união espiritual de sua comunidade para enfrentar o que vinha pela frente.
Por fim, Ester se apresenta ao rei, ele estende o cetro, Hamã é desmascarado e enforcado na forca que preparara para Mordecai, e o decreto de morte é revertido por um novo édito que permite aos judeus se defenderem (Ester 5–9). O livro de Ester termina com a instituição da festa de Purim, celebrada até hoje, em memória da libertação obtida, segundo o texto sagrado, através da coragem de uma mulher e do jejum unido de todo um povo.
O presidente Russell M. Nelson, ao lembrar a antiguidade da doutrina do jejum, cita justamente Ester entre os “heróis bíblicos” que “jejuavam e pregavam sobre o jejum”, ao lado de Moisés, Davi, Esdras, Neemias, Isaías, Daniel e Joel. Ester está entre os que compreenderam que, diante de circunstâncias que ultrapassam a capacidade individual, o jejum em união se torna um recurso espiritual de outra ordem.
Jejum individual e jejum coletivo: duas expressões da mesma lei
As escrituras não ensinam que um tipo de jejum seja superior ao outro. Ensinam, que cada um cumpre um propósito distinto, e que ambos têm lugar na vida daqueles que têm fé.
O jejum individual
O jejum pessoal aparece nas escrituras principalmente ligado a necessidades, buscas ou provações íntimas: o arrependimento de um pecado, a busca de revelação pessoal, o fortalecimento contra a tentação, ou a preparação para uma tarefa espiritual específica.
O exemplo perfeito é o do próprio Salvador. Antes de iniciar Seu ministério público, Jesus “foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome” (Mateus 4:1-2). Foi nesse estado de jejum absoluto que Ele resistiu às três tentações de Satanás.
O presidente Henry B. Eyring observou:
“Não sabemos todas as razões pelas quais Jesus Cristo foi ao deserto para jejuar e orar. Mas sabemos pelo menos um dos efeitos alcançados: o Salvador resistiu totalmente às tentações de Satanás de fazer mau uso de Seu poder divino”.
No Livro de Mórmon, Enos narra uma experiência de busca espiritual profundamente pessoal: saiu para caçar animais na floresta, e as palavras que ouviu de seu pai sobre a vida eterna “penetraram-me profundamente o coração”. Sua alma “ficou faminta”, e ele se ajoelhou e “clamou o dia inteiro; sim, e depois de ter anoitecido, continuei a elevar a minha voz até que ela chegou aos céus” (Enos 1:3-4).
O texto não usa a palavra “jejum”, mas descreve algo da mesma essência: uma entrega solitária e intensa diante de Deus, sem a companhia de ninguém, até obter resposta. É um retrato do que pode acontecer quando alguém busca a Deus com toda a alma, sozinho.
O jejum coletivo
O jejum coletivo, por sua vez, aparece nas escrituras associado a crises que afetam um povo inteiro, ao lançamento de obras importantes ou à necessidade de proteção e orientação para uma comunidade de fé.
Em Mosias 27, quando Alma, o filho, é visitado por um anjo e perde a capacidade de falar, seu pai, Alma, o pai, reúne os sacerdotes, “e eles começaram a jejuar e a orar ao Senhor seu Deus, a fim de que abrisse a boca de Alma para que pudesse falar; e também, para que seus membros recuperassem as forças”.
O texto continua: “E aconteceu que depois de haverem jejuado e orado pelo espaço de dois dias e duas noites, os membros de Alma recobraram as forças” (Mosias 27:22-23).
Não foi um jejum individual do pai aflito, foi um jejum de grupo, sustentado por dois dias inteiros, que precedeu a cura e a conversão de Alma, o filho, evento que mudaria o rumo de toda a história nefita.
Pouco depois, os filhos de Mosias: Amon, Aarão, Ômner e Hímni, antes de partirem para sua missão entre os lamanitas, “se entregaram a muito jejum e oração” (Alma 17:3). O presidente Nelson citou justamente esse exemplo ao convocar os santos para um jejum mundial durante a pandemia da covid-19:
“No espírito do que fizeram os filhos de Mosias, que se entregaram a muito jejum e oração, […] eu os convido para mais um jejum mundial”.
Morôni descreve o jejum coletivo como prática regular da igreja entre os nefitas: “E a igreja reunia-se frequentemente para jejuar e orar e para falar a respeito do bem-estar de suas almas” (Morôni 6:5). Não era um evento excepcional, mas um ritmo de vida comunitária, a congregação jejuando junta, com regularidade, pelo bem-estar de cada alma que a compunha.
No Antigo Testamento, o episódio de Nínive é um dos relatos mais impressionantes de jejum coletivo. Ao ouvir a pregação de Jonas, “os homens de Nínive creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor”.
O próprio rei “levantou-se do seu trono, e tirou de si a sua capa, e cobriu-se de panos de saco, e assentou-se sobre a cinza”, decretando que “nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem se lhes dê pasto, nem bebam água” (Jonas 3:5-7). Uma cidade inteira, do rei ao mais simples cidadão, unida num só jejum, e o resultado foi que “Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez” (Jonas 3:10).
No Novo Testamento, a igreja primitiva recorria ao jejum coletivo em momentos decisivos de decisão e envio. Em Antioquia, enquanto os líderes da igreja “serviam ao Senhor, e jejuavam”, o Espírito Santo os instruiu a separar Paulo e Barnabé para a obra missionária; “e, havendo jejuado e orado, e imposto-lhes as mãos, os despediram” (Atos 13:2-3). Mais tarde, ao constituírem presbíteros em cada igreja, Paulo e Barnabé o fizeram “orando com jejuns” (Atos 14:23).
Também na dispensação atual esse padrão se repete. Antes da dedicação do Templo de Kirtland, o Senhor instruiu os santos: “também vos dou um mandamento de que continueis em oração e jejum a partir de agora” (Doutrina e Convênios 88:76). Na oração dedicatória do templo, Joseph Smith rogou que aquela casa se tornasse “uma casa de oração, uma casa de jejum”, um espaço erguido, para abrigar a devoção coletiva dos santos.

O que os diferencia, e o que os une?
O élder Carl B. Pratt, então Setenta Autoridade Geral, resumiu essa dupla dimensão do jejum com clareza:
“O propósito de nosso jejum pode ser eminentemente pessoal. Ele pode ajudar-nos a vencer imperfeições pessoais e pecados. […] Nosso jejum pode ainda estar voltado para uma dificuldade da família. Um jejum familiar pode ajudar a aumentar o amor e a estima entre os membros da família e reduzir as contendas no lar. Podemos também jejuar como casal a fim de fortalecermos nossos laços matrimoniais.”
O mesmo princípio, jejuar com fé e com um propósito definido, pode ser vivido tanto individualmente quanto em família, com efeitos espirituais próprios em cada caso. O jejum individual purifica e fortalece o indivíduo; o jejum familiar ou coletivo, além disso, tece laços de amor, reduz contendas e cria uma memória espiritual compartilhada entre os que jejuaram juntos.
O élder L. Tom Perry ensinou que a lei do jejum tem três propósitos centrais: ajudar os necessitados por meio das ofertas de jejum, beneficiar fisicamente quem jejua, e “aumentar a humildade e a espiritualidade de cada indivíduo”.
É significativo que o primeiro desses propósitos (cuidar dos necessitados) seja, por natureza, um ato comunitário: ninguém contribui sozinho para o bem-estar de toda uma congregação. O jejum, mesmo quando praticado individualmente, já nasce entrelaçado à vida da comunidade de fé.
O élder Joseph B. Wirthlin acrescentou uma advertência importante, válida tanto para o jejum pessoal quanto para o coletivo:
“Sem a oração, o jejum não está completo, sendo apenas um período em que passamos fome. […] O jejum acompanhado de fervorosa oração tem muito poder. Pode envolver nossa mente com as revelações do Espírito. Pode fortalecer-nos contra os momentos de tentação”. O jejum, sozinho ou em grupo, só se torna instrumento de poder espiritual quando unido à oração sincera.
Existe, então, uma diferença espiritual?
As escrituras sugerem que a diferença não está no valor de um em relação ao outro, ambos são expressões válidas e poderosas da mesma lei espiritual, mas na natureza da experiência e no tipo de fruto que cada um produz.
O élder Jeffrey R. Holland testificou dos milagres:
“Presto testemunho dos milagres, tanto espirituais como físicos, que acontecem aos que vivem a lei do jejum. Presto testemunho dos milagres que ocorreram comigo. Sem dúvida, como registrou Isaías, eu clamei no jejum mais de uma vez, e Deus verdadeiramente respondeu: “Eis-me aqui”. Valorizem esse privilégio sagrado, pelo menos uma vez por mês, e sejam tão generosos quanto possível em suas ofertas de jejum e outras contribuições humanitárias, educacionais e missionárias. Prometo que Deus será generoso com vocês e os que encontrarem alívio por seu intermédio os chamarão bem-aventurados.”

Uma reflexão para o seu lar
Vale a pena, então, fazer uma pausa e perguntar: como tenho vivido meus jejuns pessoais? Tenho reservado, ao menos uma vez por mês, esse tempo sagrado para me aproximar de Deus com humildade e um propósito definido, ou o jejum tem se tornado, para mim, apenas “um período em que passamos fome”, como advertiu o Élder Wirthlin?
E além disso: minha família jejua unida por um propósito comum? Há, em nosso lar, momentos em que nos ajoelhamos juntos, pais e filhos, para pedir a Deus por uma necessidade que é de todos nós, e não apenas de um? Temos ensinado nossos filhos, com exemplo e não apenas com palavras, o poder de um jejum vivido em família?
O jejum, ensinam as escrituras e os profetas, nunca foi pensado apenas como uma prática individual de devoção. É também um convite permanente à união, da família, da congregação, de um povo inteiro, diante do trono de Deus. Que cada um de nós, como Ester, encontre coragem para agir; e que, como ela, aprendamos primeiro a nos ajoelhar juntos.
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Post original de Maisfé.org
