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Evidências do Livro de Mórmon: Dragões

As descrições de “dragões” no Livro de Mórmon se encaixam bem tanto no contexto do antigo Oriente Próximo quanto no da América antiga.

Um aspecto do Livro de Mórmon que às vezes chama a atenção é o uso da palavra dragão em quatro ocasiões. Duas delas aparecem em citações de Isaías (2 Néfi 8:9; 23:22; cf. Isaías 13:22; 51:9), o que não é surpreendente, já que o termo também aparece em diversas passagens da Bíblia King James. No entanto, a palavra também é usada em duas passagens exclusivas do Livro de Mórmon, ambas como comparação para guerreiros ferozes (Mosias 20:11; Alma 43:44). Os leitores podem se surpreender com essas ocorrências e se perguntar por que dragões — geralmente considerados criaturas míticas hoje — são mencionados no Livro de Mórmon.

Dragões
Imagem: Mais Fé

Contexto do Oriente próximo e da Bíblia

Como a concepção nefita de dragões pode ter se originado da visão de mundo israelita, vale a pena resumir o que os dragões representavam no Oriente Próximo e, especialmente, na Bíblia hebraica. A palavra hebraica traduzida como “dragão” (tannin) é um termo amplo que geralmente descreve criaturas reptilianas de vários tamanhos, incluindo serpentes, crocodilos e até serpentes marinhas lendárias. Às vezes, tannin é traduzido como “baleia” na Bíblia King James, mas essa associação é considerada incerta.

Embora ocasionalmente seja descrito como um animal terrestre, tannin está principalmente associado à água e geralmente aparece em contextos aquáticos. Assim como outras criaturas semelhantes a dragões nas culturas do Oriente Próximo, tannin pode representar o caos aquático que precedeu a Criação. Muitas culturas da região relacionavam o surgimento da Criação à derrota de um monstro marinho primordial. Essa imagem também aparece em várias passagens bíblicas que mencionam Jeová derrotando um grande monstro marinho como parte da Criação, às vezes identificado por nomes próprios, como Raabe.

Uso no Livro de Mórmon

A concepção hebraica de tannin também pode estar por trás de alguns usos da palavra “monstro” no Livro de Mórmon. Após citar uma passagem de Isaías sobre Deus derrotando um tannin, Jacó personificou repetidamente a morte, o inferno e o diabo como um “terrível monstro” do qual Deus livra Seus santos. Tannin também pode ser o conceito por trás do “monstro do mar” mencionado por Morôni junto com “baleias” em Éter 6:10.

Aplicação ao Novo Mundo

Conforme estudiosos Santos dos Últimos Dias como John L. Sorenson e Matthew Roper observaram, muitas dessas concepções do Velho Mundo poderiam ser facilmente aplicadas ao ambiente biológico e cultural do Novo Mundo. Sobre a menção de dragões em Mosias 20:11, Sorenson explica:

Que tipo de “dragões” ele tinha em mente? Provavelmente crocodilos ou jacarés. Mas esse “dragão” era mais do que um animal perigoso. Na mitologia mesoamericana, acreditava-se que uma enorme criatura com forma de crocodilo flutuava sobre um oceano subterrâneo imaginado. Suas costas eram a superfície da terra, e sua ligação com a terra e as águas simbolizava fertilidade e produtividade. Esse “monstro da terra” aparece repetidamente na base de esculturas. Assim, a imagem do dragão usada por Zenife provavelmente tinha um significado poderoso para seus ouvintes e não era apenas uma expressão literária.

Dragões
Imagem: Mais Fé

Mitologia e animais que poderiam explicar os “dragões”

Diversas espécies de crocodilianos (incluindo crocodilos, jacarés e caimões) existem nas Américas. Relatos antigos registram sua ferocidade, incluindo ataques a seres humanos e até mortes. As Américas também abrigam serpentes perigosas, como víboras, além de muitas serpentes aquáticas ou semi-aquáticas, algumas venenosas.

Embora as bases biológicas do tannin do Velho Mundo possam ser associadas a animais do Novo Mundo, também existe uma correspondência conceitual com a ideia mitológica de dragões nas culturas americanas antigas. Muitas sociedades americanas possuíam paralelos culturais e mitológicos com a ideia de um monstro reptiliano sobrenatural e violento, frequentemente ligado à água.

Um exemplo marcante aparece em um mural de Tulum e em uma imagem do Códice de Dresden, que retratam uma inundação cósmica saindo da boca ou do corpo de um enorme crocodilo. Em alguns contextos, a própria água era personificada como uma serpente.

Um relato de criação do Novo Mundo descreve a morte de um enorme crocodilo ou caimão cujo corpo foi usado para formar a terra e o céu — algo semelhante às histórias de criação do Oriente Próximo, nas quais um monstro oceânico primordial é derrotado. Nesse mito, a terra era considerada as costas de um enorme crocodiliano ou tartaruga, às vezes representado com árvores crescendo sobre ele. O Popol Vuh, por exemplo, narra como os Heróis Gêmeos derrotaram um grande monstro crocodiliano capaz de formar montanhas. Assim, crocodilianos tornaram-se símbolos não apenas da água, mas também da terra e da fertilidade. Curiosamente, estudiosos modernos às vezes usam o termo dragão para descrever essas criaturas.

Monstros reptilianos nas crenças americanas antigas

A serpente era um símbolo sagrado no antigo Israel, e várias culturas do Velho Mundo a consideravam divina ou sobrenatural. Culturas do Novo Mundo também frequentemente divinizavam a serpente, e muitas divindades apareciam em forma serpentina ou crocodiliana.

Nem todas estavam ligadas à água ou à guerra, mas havia sobreposição entre esses temas. Divindades como K’uk’ulkan e Tlaloc podiam ser representadas como reptilianas e aquáticas. Além disso, o mar às vezes era visto como um lugar de violência, e um dos principais seres sobrenaturais associados à guerra era a Serpente da Guerra, ligada ao deus K’uk’ulkan.

Dragões como símbolo de guerreiros ferozes

O combate na antiga Mesoamérica também podia ser entendido como uma transformação simbólica dos guerreiros em seres sobrenaturais durante a batalha. A realeza maia, por exemplo, era acompanhada em procissões por “bestas de guerra”, representações de animais espirituais chamados wayob, nos quais os reis acreditavam se transformar em combate.

Embora frequentemente representados como onças, alguns estudiosos sugerem que essas imagens podem ter características crocodilianas ou uma combinação de onça e crocodilo. Esses animais espirituais também podiam ser representados como serpentes, e tanto serpentes quanto crocodilos apareciam em cocares maias.

Diante dessas associações com combate, é possível que essas ideias estejam relacionadas à imagem nefita de lutar “como dragões”. Embora o dragão (do grego drakon) tenha se tornado um símbolo do diabo no Apocalipse e no cristianismo em geral, o uso no Livro de Mórmon — e também na Mesoamérica — parece mais neutro, já que tanto lamanitas quanto nefitas são descritos lutando “como dragões”.

Hebraico
Imagem: Mick Haupt, Unsplash

O que isso significa para o Livro de Mórmon hoje

Para leitores modernos, pode parecer estranho que culturas antigas acreditassem na existência de criaturas fantásticas ou atribuíssem características sobrenaturais a animais reais. Embora alguns israelitas e nefitas possam ter acreditado literalmente em seres míticos, muitas menções a essas criaturas nas escrituras hebraicas e nefitas parecem ser principalmente figurativas.

Mesmo que crenças não científicas existissem, as escrituras ensinam que Deus fala a todas as nações segundo sua própria linguagem e compreensão cultural, concedendo-lhes verdades de maneiras que possam entender (Doutrina e Convênios 1:24; Alma 29:8).

Em última análise, saber que essas concepções do termo hebraico tannin — incluindo serpentes, crocodilos e monstros marinhos primordiais — também eram familiares no contexto do Novo Mundo ajuda a desfazer a ideia de que a palavra dragão esteja fora de lugar no Livro de Mórmon. O termo pode se referir a diversos animais ferozes conhecidos pelos lehitas e que possuíam importância religiosa e cultural tanto no Oriente Próximo quanto nas Américas antigas.

Fonte: Scripture Central

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