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Quem somos nós na história de Jó?

O homem está sentado na cinza. Tem chagas da planta do pé ao alto da cabeça e, para se raspar, usa um caco, um pedaço de vaso quebrado, é a única coisa que lhe resta. (Jó 2:7–8)

Um homem que tinha sete mil ovelhas agora se coça com lixo. É uma das imagens mais duras do Velho Testamento e é, também, o lugar onde quase todos nós escolhemos nessa história. Abrimos o livro e nos sentamos ali junto com ele.

Só que há um elenco inteiro em volta daquela cinza: uma esposa, três amigos, que atravessaram distâncias para chegar, um rapaz, que fica calado por trinta capítulos e depois não se contém, parentes que só aparecem no fim.





Todos eles reagem ao sofrimento de alguém, e cada reação pode ser julgada facilmente quando estamos lendo a história encontrada na Bíblia, sem nos colocar no lugar de cada um. Se formos honestos com a aritmética da nossa própria vida, passamos muito mais tempo do lado de fora da tragédia dos outros do que dentro da nossa.

O homem da cinza reclama, e reclama alto. “Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem!”. (Jó 3:3)

Ele amaldiçoa o próprio nascimento, pergunta por que não morreu ao sair do ventre, diz que preferia a sepultura. Depois exige audiência: “Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me para com Deus” (Jó 13:3). É um homem pedindo que Deus venha ao tribunal explicar-se, porque um Deus justo estava permitindo que tantas coisas ruins acontecessem com um homem bom?

E o texto conclui o capítulo anterior assim: “Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10). O mesmo homem que quer processar Deus é o mesmo que diz: “Ainda que ele me matasse, nele esperarei” (Jó 13:15).

O manual do Vem, e Segue-Me descreve isso assim: no livro de Jó “a fé é questionada e testada, mas nunca completamente abandonada”, e “até que sejam respondidas, as perguntas podem coexistir com a fé”

A mulher de Jó

Ela tem uma única fala em quarenta e dois capítulos: “Ainda reténs a tua integridade? Amaldiçoa a Deus, e morre” (Jó 2:9). Onze palavras, e três mil anos de má reputação. Ainda hoje é condenada por não ter tido misericórdia do marido bondoso que sofria sem motivo.

Vale reler o capítulo 1 antes de julgá-la. Os dez filhos que morreram sob a casa do irmão mais velho eram dela também. A ruína econômica era dela também. E depois disso ela viu o marido apodrecer vivo.

Ninguém a visita. Ninguém rasga o manto por ela. Ninguém senta no chão a seu lado por sete dias. Ela é a única pessoa da história que perde tudo e não recebe nem um consolador.

Repare ainda na resposta de Jó: ele não diz “tu és doida”. Ele diz: “Como fala qualquer das doidas, falas tu” (Jó 2:10). A frase mira o que saiu da boca dela, não o que ela é.

É uma distinção pequena, mas podemos dizer que ela não era nenhuma doida. E pode parecer fácil falarmos que ela fala como uma doida, ao pedir que o marido amaldiçoe Deus. Sabemos que ele agiu da forma certa lutando pela fé, mesmo perdendo tudo, mas também não podemos julgar quem perdeu tudo e perdeu a fé que tinha, seja ela pequena ou grande.

Estamos falando do amor de uma mãe, precisamos enxergar isso. Jó pode ser o exemplo de como devemos agir ao perder tudo, mas ele não deve ser nosso exemplo quando falamos de misericórdia. Ele não buscou entender a dor de sua esposa, ao contrário, falou que ela estava falando como uma doida.

Os sete dias

Elifaz, Bildade e Zofar merecem ser vistos primeiro no seu melhor momento, porque ele existiu. Souberam da desgraça, saíram cada um do seu lugar e combinaram entre si de ir juntos.

Quando avistaram Jó de longe, não o reconheceram. Choraram, rasgaram os mantos, lançaram pó sobre a cabeça. E então: “se assentaram juntamente com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande” (Jó 2:11–13).

Sete dias no chão sem dizer nada. Nenhuma citação de escritura, nenhuma explicação sobre o plano, nenhuma frase começada com “pelo menos”. Esses homens já estavam cumprindo o convênio que Alma descreveria muito depois às margens de Mórmon: chorar com os que choram e consolar os que necessitam de consolo (Mosias 18:8–9).

O silêncio, então, foi quebrado

Aí o silêncio acabou, e com ele acabou o consolo. Os três operam com uma lógica simples: Deus é justo, portanto quem sofre está pagando por algo. Jó sofre muito. Logo, Jó pecou muito. Basta que confesse!

Como Jó insiste na inocência, a lógica precisa de combustível, e Elifaz vai buscá-lo onde não existe: “Porventura não é grande a tua maldade? E infinitas as tuas iniquidades? Porque penhoraste teus irmãos sem causa alguma, e aos nus despiste as roupas. Não deste de beber água ao cansado, e ao faminto retiveste o pão” (Jó 22:5–7).

São acusações inventadas, Elifaz não tinha como saber de nada disso, e nada disso aconteceu. Ele precisava que Jó fosse culpado, então fabricou a culpa.

O élder Dieter F. Uchtdorf disse uma frase que nos faz enxergar melhor a situação:

“É indigno de nós, como cristãos, pensar que as pessoas que sofrem merecem seu sofrimento”.

Este é o papel para o qual ninguém quer ter nessa história, e é o que mais representamos, raramente com a crueza de Elifaz, normalmente em voz baixa, pois sabemos que o que fazemos é errado, em forma de pergunta: será que ela não parou de orar? será que ele não deixou de ir ao templo?

Buscamos a causa porque a causa nos protege, se houver um motivo e ele não for algo que costumamos fazer ou deixamos de fazer, então não vai acontecer nada conosco.

Eliú

Eliú é o mais novo da roda e sabe disso. Esperou os outros falarem “porquanto tinham mais idade do que ele”, mas a paciência tinha limite: a ira dele se acendeu contra Jó, “porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus”, e também contra os três amigos, “porque, não achando o que responder, todavia condenavam Jó” (Jó 32:1–6).

Ele está cheio de palavras, fala, como o pão que cresce e transborda da forma, faz isso por seis capítulos seguidos e ninguém lhe responde uma linha.

Quando Deus finalmente distribui repreensões, no capítulo 42, a lista tem três nomes: Elifaz, Bildade e Zofar. O de Eliú não aparece. Nem para ser corrigido, nem para ser elogiado. O rapaz que falou mais alto no fim é o único que não é mencionado.

Precisamos, ponderar se ás vezes ou estamos perdendo o tempo falando demais para quem não vai entender, ou se, por mais que estejamos do lado da razão, não a perdemos com a fúria que nos envolve.

As perguntas

Então o Senhor responde do meio de um redemoinho, e não explica nada.

Começa devolvendo a pergunta: “Quem é este que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38:2).

Depois vêm as estrelas da alva, as portas do mar, os tesouros da neve, o avestruz, o cavalo, a águia. O élder Dale G. Renlund nos explica o motivo de tantas perguntas: para destacar a ignorância deles, “Deus fez pelo menos 66 perguntas, exigindo que Jó as respondesse. Jó não conseguiu”. E observa, sobre o livro inteiro: ele “aborda a pergunta, mas nunca responde o motivo”.

Um homem passou trinta capítulos exigindo uma explicação. Recebeu um interrogatório sobre a geada, o gelo e os filhotes dos corvos. As razões do Senhor não cabem a nós discutir, podemos entendê-las com o passar o do tempo e pode ser que esse tempo só chegue no final dessa vida.

Os que chegaram no fim

Quase no último parágrafo do livro aparece gente que o leitor nem sabia que existia: “Então foram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram acerca de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro e um pendente de ouro” (Jó 42:11).

Comeram pão com ele, se condoeram, deixaram um presente. E o texto usa para esse gesto tardio o mesmo verbo que usou para os sete dias de silêncio: consolar. Eles chegaram atrasados, irmãos e irmãs, gente que já o conhecia, ausentes durante toda a tragédia e presentes só depois que ela passou. As escrituras não os elogia por isso, mas também não os critica.

Quem é que vai entender o que eles também estavam passando naquele período? Às vezes não culpamos a pessoa por suas tragédias, mas buscamos em outras pessoas, que podem nem ter sido avisadas, a culpa e a crítica, que julgamos caber a nós fazer.

Jó, outra vez

Antes disso, porém, Deus dá aos três amigos uma instrução constrangedora. Devem levar sete bezerros e sete carneiros, oferecer holocausto por si mesmos e depois ficar parados esperando: “o meu servo Jó orará por vós, porque deveras a ele aceitarei” (Jó 42:8).

Os homens que passaram semanas provando que Jó era culpado precisam agora que ele interceda por eles.

E é exatamente nesse ponto que a história vira: “E o Senhor mudou a sorte de Jó, quando orava pelos seus amigos” (Jó 42:10). Não quando entendeu, afinal de contas explicação nenhuma ele recebeu, pelo menos não naquele momento, mas foi quando deixou de lamentar por si mesmo e foi pedir por outras pessoas que sua vida foi restaurada.

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