Perguntas e respostas sobre a restrição do sacerdócio para os santos negros
Por mais de um século, a Igreja negou aos homens de ascendência africana a ordenação ao sacerdócio, e a homens e mulheres negros, a participação na investidura e no selamento do templo.
Foi uma das restrições mais duradouras, e mais dolorosas, de toda a história da Igreja, sustentada por gerações de líderes antes de ser revogada, em 1978, por meio de uma revelação ao presidente Spencer W. Kimball.
É também um dos capítulos que mais geram dúvida entre os membros hoje: por que a restrição existiu, se ela foi doutrina ou apenas prática administrativa, o que a Igreja pensava sobre isso enquanto durou, como e por que ela finalmente terminou, e o que a Igreja diz sobre tudo isso agora.
Reunimos aqui as perguntas mais comuns sobre o tema, com respostas baseadas no texto oficial da Igreja sobre o assunto, na Declaração Oficial 2 e em registros históricos documentados.
O que foi, exatamente, essa restrição?
Da década de 1850 até junho de 1978, a Igreja não ordenava ao sacerdócio homens com ascendência africana, nem permitia que homens ou mulheres negras participassem da investidura do templo ou de ordenanças de selamento.
Isso não valia para todo o mundo da mesma forma: a Igreja sempre permitiu que homens de origem polinésia recebessem o sacerdócio, e alguns grupos, como os fijianos negros, foram expressamente excluídos da restrição ainda antes de 1978. O rigor com que a regra era aplicada também variou bastante ao longo do tempo.
Vale notar que nos primeiros anos da Igreja, na década de 1830, pelo menos dois homens negros, Elijah Abel e Q. Walker Lewis, foram ordenados ao sacerdócio, e não há registros confiáveis de que alguém tenha sido impedido de recebê-lo por causa da raça enquanto Joseph Smith foi o profeta.

De onde veio essa restrição?
Ela começou oficialmente em 1852, quando o presidente Brigham Young anunciou, em discursos à legislatura territorial de Utah, que homens afrodescendentes não seriam mais ordenados ao sacerdócio.
O anúncio aconteceu num contexto em que colonos vindos do sul dos Estados Unidos, alguns deles convertidos que haviam trazido pessoas escravizadas para Utah, discutiam o status legal da escravidão no território, e em meio a uma cultura racial americana desigual, décadas antes do fim da escravidão e mais de um século antes do fim da segregação legal.
Na mesma ocasião, Brigham Young declarou que um dia os membros negros da Igreja teriam “todos os privilégios e muito mais” do que os demais membros desfrutavam.
Os registros da própria Igreja não trazem uma explicação clara e definitiva sobre a origem exata dessa decisão.
Era doutrina ou apenas uma prática administrativa?
Depende de quem e quando você pergunta. Durante boa parte do século 20, líderes da Igreja se referiram à restrição como “doutrina”.
Mas em março de 1954, o presidente David O. McKay teria dito, em uma conversa registrada por um professor da Universidade de Utah, que a restrição “não é uma questão de doutrina. É simplesmente uma prática”, embora, na mesma conversa, ele também tenha mencionado um “precedente nas escrituras” para a regra e afirmado que só uma revelação poderia mudá-la.
Já em 1973, o então presidente Spencer W. Kimball declarou: “Estamos sob os desígnios de nosso Pai Celestial, e isso não é política minha nem da Igreja.”
De onde veio a ideia de que espíritos “menos valorosos” nasceram em corpos negros?
Essa teoria, de que, numa guerra pré-mortal contra Lúcifer, alguns espíritos teriam sido “menos valorosos” e por isso nasceriam com restrições na mortalidade, nunca foi publicada em um manual oficial nem ensinada em conferência geral, mas circulou de forma privada entre líderes da Igreja por décadas.
Ela aparece, por exemplo, em correspondências particulares da Primeira Presidência em 1947, e o apóstolo Bruce R. McConkie a registrou por escrito em 1958, no livro Mormon Doctrine, afirmando que pessoas “menos valorosas na pré-existência” teriam nascido como “os negros”.
Ainda assim, em 1961, o presidente McKay anotou em seu diário que o “único motivo” para a restrição estava no Livro de Abraão, não nessa teoria. Mesmo assim, a ideia dos “espíritos menos valorosos” continuou aparecendo em declarações de alguns apóstolos e, de forma mais genérica, em um comunicado da Primeira Presidência de 1969.
As explicações dadas ao longo do tempo são doutrina da Igreja hoje?
Não. Além da teoria dos “espíritos menos valorosos”, outra explicação comum ao longo da história foi a de que a pele escura seria a marca de uma maldição bíblica ligada a Caim. Nenhuma dessas teorias é aceita hoje como doutrina oficial.
Em dezembro de 2013, a própria Igreja publicou um posicionamento oficial rejeitando essas ideias: o texto afirma que a Igreja “rejeita as teorias do passado de que a pele escura seja um sinal de desagrado divino ou de maldição, ou que ela reflita as ações de uma vida pré-mortal; que casamentos interraciais sejam um pecado; ou que os negros ou as pessoas de qualquer outra raça ou origem étnica sejam, de alguma maneira, inferiores a qualquer outra pessoa”, acrescentando que os líderes da Igreja hoje “inequivocamente condenam todo racismo, passado e presente, sob qualquer forma”.
A Igreja já deu uma explicação oficial para o motivo da restrição?
Não completamente. A Igreja nunca publicou uma declaração oficial explicando, de forma definitiva, por que a restrição foi implantada.
O único pronunciamento público sobre o assunto antes de 1978 veio em 1969, e mesmo assim sem entrar em detalhes. Dizia apenas que a prática remontava a “um plano que se estende até o estado pré-existente do homem”.
O comunicado de 2013 rejeita as antigas teorias usadas para justificar a restrição, mas também não apresenta uma explicação oficial alternativa para sua origem.
A Igreja do século 20 foi racista?
Sim. Durante boa parte do século 20, vários líderes da Igreja expressaram ideias racistas e sustentaram práticas discriminatórias, em especial em relação a pessoas de ascendência africana.
Esse é um ponto reconhecido inclusive pela historiografia mais recente sobre o tema, e é parte do motivo pelo qual a Igreja, em 2013, sentiu necessidade de rejeitar publicamente as antigas teorias que tentavam justificar a restrição.

A Igreja era mais racista do que a sociedade americana da época?
Provavelmente não. Em 1966, o sociólogo Armand L. Mauss conduziu uma pesquisa sobre atitudes “antinegro” entre santos dos últimos dias e concluiu que, apesar de algumas diferenças pontuais, não havia “diferenças sistemáticas nas atitudes raciais seculares entre mórmons e não mórmons, ou entre mórmons ortodoxos e não ortodoxos”.
Em outras palavras, os membros da Igreja pareciam refletir, não necessariamente superar, o racismo comum na sociedade americana daquele período.
A Igreja chegou a segregar congregações?
Não como política oficial. Não existia uma regra de segregar alas ou ramos por raça, mas há pelo menos um caso documentado de uma família negra em Ohio que foi orientada, por líderes locais, a não frequentar as reuniões da congregação.
Também ficou registrado que o élder Stephen L. Richards teria dito a um membro negro que, se os santos negros “não quisessem se misturar” com os demais, a Igreja construiria “uma igreja só deles”, numa referência ao modelo já usado, na época, para congregações de fala hispânica.
A Igreja defendia oficialmente a segregação fora do contexto religioso?
Não. Em 1969, o único pronunciamento oficial da Igreja sobre o tema afirmou: “Cada cidadão deve ter oportunidades iguais e proteção legal em relação aos direitos civis […] Não temos congregações racialmente segregadas.”
Dito isso, líderes e membros individuais às vezes se manifestavam a favor da segregação em outros contextos, e, como em muitos outros estados americanos, a segregação em moradia e espaços públicos persistiu em Utah até meados da década de 1960.
É verdade que havia segregação de sangue de doadores negros no Hospital da Igreja?
Sim, até o início dos anos 1950. Essa era, na época, a prática padrão da Cruz Vermelha americana e de outros hospitais dos Estados Unidos, mesmo sem qualquer base médica reconhecida para a distinção.
O Hospital seguia essa mesma prática, possivelmente por preocupação de que uma transfusão de sangue de um doador negro pudesse, segundo a lógica da época, tornar o receptor inelegível para o sacerdócio.
Havia uma política de não pregar o evangelho a pessoas negras?
Não havia uma política oficial, válida para toda a Igreja, de não ensinar o evangelho a pessoas negras, mas, na prática, líderes frequentemente desencorajavam, e às vezes chegavam a proibir, esforços missionários voltados especificamente a populações negras em certas regiões.
Outras universidades boicotaram times esportivos da BYU por causa da restrição?
Sim. Em abril de 1968, atletas negros da Universidade do Texas em El Paso foram os primeiros de vários times a pedir boicote a jogos contra a BYU.
Em resposta, a universidade publicou, numa reunião da Western Athletic Conference em novembro de 1969, uma declaração afirmando que não havia política de discriminação racial na instituição.
Algo mudou por causa dos protestos contra a BYU em 1968–69?
Sim. A liderança da BYU revisou e publicou sua posição sobre minorias e direitos civis, a Universidade do Arizona divulgou o resultado de uma investigação sobre racismo na BYU (concluindo que a instituição não era “mais racista do que qualquer outra universidade”), e o órgão federal de direitos civis dos Estados Unidos revisou e confirmou que a BYU estava em conformidade com a Lei de Direitos Civis de 1964.
A Igreja fez alguma declaração sobre legislação de direitos civis?
Sim. Em 15 de dezembro de 1969, Hugh B. Brown e N. Eldon Tanner, primeiro e segundo conselheiros na Primeira Presidência, assinaram um comunicado apoiando a plena garantia de direitos civis para todos os cidadãos.
O presidente David O. McKay não assinou o documento, mas não por discordância: na época, sua saúde já era frágil, e os demais líderes haviam decidido que ele seria dispensado de assinar toda a correspondência oficial da Primeira Presidência.
A Igreja chegou a dizer, em 1969, que a restrição seria suspensa em breve?
Segundo o jornal The Salt Lake Tribune, em 25 de dezembro de 1969 Hugh B. Brown declarou que a restrição do sacerdócio “vai mudar num futuro não muito distante”. Ele não voltou a comentar o assunto publicamente antes da morte do presidente McKay, em janeiro de 1970.

O presidente Kimball deu algum sinal, logo que assumiu, de que a restrição seria suspensa?
Pouco depois de se tornar presidente da Igreja, em dezembro de 1973, Spencer W. Kimball disse ter dedicado “muita reflexão e oração” ao tema, mas que “o dia pode chegar em que [os homens negros] recebam o sacerdócio, mas esse dia ainda não chegou. Se chegar, será por meio de revelação.”
Por que a revelação não veio antes?
Não se sabe ao certo. O próprio presidente Kimball reconheceu que a questão já havia sido levada a presidentes anteriores da Igreja repetidas vezes, mas nunca apontou um motivo específico para a demora, apenas que ela precisava vir no tempo do Senhor, “e não antes”.
É verdade que presidentes anteriores oraram sobre o assunto e receberam a resposta “ainda não”?
Sim, segundo diversos relatos de segunda mão, não há registros em primeira pessoa, exceto os do próprio presidente Kimball.
O presidente David O. McKay teria buscado orientação sobre o tema em várias ocasiões ao longo de seu ministério, nas décadas de 1950 e 1960, e teria dito a mais de uma pessoa próxima que a resposta recebida era sempre “ainda não” ou algo equivalente a “deixe o assunto de lado por enquanto”.
Já o presidente Harold B. Lee teria passado três dias e três noites em jejum na sala superior do templo, no início dos anos 1970, recebendo a mesma resposta. O próprio Kimball chegou a comentar que já orava sobre o tema havia cerca de 15 anos antes de receber a revelação, em 1978.
A pressão externa influenciou a decisão de 1978?
Provavelmente foi um fator, entre outros. No fim dos anos 1960 e em 1970, algumas universidades boicotaram equipes esportivas da BYU por causa da restrição, e a Receita Federal americana chegou a anunciar que revogaria a isenção fiscal de escolas particulares com políticas raciais discriminatórias.
Ainda assim, segundo o historiador Edward Kimball, filho do próprio presidente Spencer W. Kimball, em um artigo publicado na revista acadêmica BYU Studies, em 1978 “a pressão externa estava no nível mais baixo em anos”.
Os relatos dos apóstolos presentes na oração de junho de 1978 descrevem a decisão como uma resposta espiritual direta, não como reação a protestos daquele momento específico.
A construção do templo em São Paulo influenciou a decisão?
Provavelmente também foi um fator. O Brasil era conhecido como uma espécie de “democracia racial”, com milhões de descendentes de africanos escravizados que tiveram filhos com colonizadores europeus, o que tornava, segundo um dos conselheiros da Primeira Presidência da época, “muito difícil, quando não impossível”, determinar a ascendência genealógica exata de cada membro brasileiro.
Quando o Templo de São Paulo foi anunciado, em 1975, líderes da Igreja passaram a conhecer de perto membros negros e de ascendência mista que haviam contribuído com tempo e recursos para a construção de um templo que, pelas regras da época, talvez não pudessem frequentar.

Como e quando a restrição terminou, de fato?
Em junho de 1978, depois de muitas horas de oração na sala superior do Templo de Salt Lake, o presidente Spencer W. Kimball, seus conselheiros na Primeira Presidência e os membros do Quórum dos Doze Apóstolos relataram ter recebido uma revelação confirmando que havia chegado o momento de estender o sacerdócio e as bênçãos do templo a todos os membros dignos, independentemente da raça.
O anúncio foi feito publicamente em 8 de junho de 1978 e sustentado por toda a Igreja reunida em conferência geral em 30 de setembro daquele ano, hoje é parte das escrituras, registrado como Declaração Oficial 2, no final de Doutrina e Convênios.
Gordon B. Hinckley, que na época era membro do Quórum dos Doze e estava na sala durante a revelação, descreveu o momento assim: “Havia uma atmosfera reverente e sagrada no aposento. Para mim, era como se tivesse surgido uma conexão direta entre o trono celestial e o profeta de Deus que estava ajoelhado e suplicava ao lado dos apóstolos. […] Nenhum dos presentes naquela ocasião foi o mesmo depois. Nem a Igreja foi a mesma.”
Como os outros apóstolos descreveram esse momento?
De forma semelhante: todos os relatos disponíveis dos que estavam na sala falam de uma experiência espiritual forte e compartilhada, não de uma decisão administrativa.
O presidente Kimball descreveu “um sentimento avassalador ali, uma onda de unidade como nunca tínhamos tido antes”. Ezra Taft Benson falou do “mais doce espírito de unidade e convicção” que já havia sentido.
Bruce R. McConkie disse que “o Espírito do Senhor repousou poderosamente sobre todos nós” durante a oração. Segundo ele, o Senhor quis que houvesse várias testemunhas independentes daquele momento, capazes de atestar, cada uma por si, que aquilo havia realmente acontecido, e é por isso que praticamente todos os presentes relataram sensações parecidas de unidade e confirmação espiritual, de forma independente uns dos outros.
Alguém se opôs à decisão de 1978?
Sim, embora a reação entre os membros tenha sido, de forma geral, muito positiva. O presidente Kimball recebeu cerca de 30 cartas de reclamação, a maioria, segundo relatos, de pessoas que não pertenciam à Igreja, algumas chamando-o de “traidor da própria raça”.
Um grupo polígamo dissidente, a Apostolic United Brethren, publicou uma nota condenando a decisão. Mas esses foram casos isolados: a resposta predominante, dentro da Igreja, foi de alívio e alegria.
Quando os primeiros santos negros voltaram a receber o sacerdócio?
As ordenações começaram quase imediatamente depois do anúncio, em 8 de junho de 1978. Joseph Freeman Jr. é reconhecido como o primeiro homem negro a receber o Sacerdócio de Melquisedeque nos tempos modernos, e Ruffin Bridgeforth, um dos fundadores do Grupo Gênesis, pode ter sido o primeiro a ser ordenado sumo sacerdote.
Relatos da época descrevem reações emocionadas entre os santos negros; um morador de Salt Lake City, membro da Igreja desde 1956, resumiu o sentimento em uma frase simples: “Eu gritei de alegria.”
O que a maioria dos santos dos últimos dias pensa sobre a restrição hoje?
Há pouco dado disponível sobre isso, mas uma pesquisa de 2016 indicou que 4 em cada 5 membros da Igreja acreditavam que a restrição havia sido inspirada por Deus, ou seja, que fazia parte do plano do Senhor para aquele período, mesmo sem uma explicação oficial e definitiva sobre o motivo.
O que é o Grupo Gênesis?
É um grupo de apoio oficial da Igreja voltado a membros negros, criado em 19 de outubro de 1971, ainda antes do fim da restrição, a pedido de três santos negros: Ruffin Bridgeforth, Darius Gray e Eugene Orr. O grupo continua se reunindo até hoje.

O que a Igreja diz sobre isso atualmente?
A posição oficial da Igreja é a de que o evangelho de Jesus Cristo é para toda a família humana, sem distinção de raça.
O Livro de Mórmon ensina que “[o Senhor] não repudia quem quer que o procure, negro e branco, escravo e livre, homem e mulher; […] todos são iguais perante Deus” (2 Néfi 26:33). Desde 1978, o número de membros da Igreja de ascendência africana só cresceu, hoje soma centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo.
Fonte: mormonr
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Post original de Maisfé.org
